13.4.11

Debaixo do Sol

Eram dois, um escuso e um íntegro.
Pouco antes da linha de chegada da amarelinha havia um apetitoso doce de mocotó.
O corredor desonesto estava disposto a bater e estrangular pelo doce, 
e foi assim que conseguiu o que queria.

16.3.11

Por que os chatos adoram Marx


“Half the harm that is done in this world
Is due to people who want to feel important”

“Metade de todo o mal deste mundo
É devido a pessoas que querem sentir-se importantes”

T. S. Eliot

A teoria do Marx pode ser muito antipática, muita gente sente arrepios ao ouvir coisas como reforma agrária ou sindicalismo, mas não é esse o caso. Bem, também não sou totalmente simpático aos métodos dele, mas  acho que o teórico em questão e, principalmente, muitos dos seus seguidores estão preocupados com os grandes sofrimentos da humanidade e não há nada mais legítimo que isso. O problema que eu queria discutir é o potencial que a teoria tem para alimentar egos famintos por qualquer coisa, exceto  por tentar solucionar os problemas do homem. Mas antes de explicar o porquê, é preciso esclarecer duas coisas mesmo que, num primeiro momento, não pareçam estar diretamente relacionadas ao assunto.


A primeira é que a maior satisfação do homem na Terra é sobressair-se. Mais que estar seguro, mais que amar, mais que se divertir, mais do que qualquer coisa. O que mais apraz um ser humano é a sensação de ser superior aos outros. Para quê? Para nada. Como nos ensinou O'Brien, personagem do 1984 do George Orwell, "o objetivo do poder é o poder", ou, no nosso caso, o objetivo da superioridade é a superioridade. Outro dia, folheando uma revista de divulgação científica, li que, de acordo com uma pesquisa, a riqueza não traz felicidade, o importante mesmo é ser mais rico que as pessoas do seu convívio. O importante é estar acima.


O segundo esclarecimento diz respeito à relação entre a superioridade e a crítica. Há muitas formas de sentir-se superior e uma das melhores é criticando. Isso acontece porque quando criticamos algo soamos como se entendêssemos muito do assunto, fazendo com que nossos camaradas melhorem suas opiniões a nosso respeito, gerando o desejável efeito que acabamos de conhecer.


O marxismo se encaixa nisso tudo devido a um de seus pontos centrais. Ele diz que a posse é a raiz de todos os males e por isso deve ser erradicada, e é tarefa do estudioso sério criticar esse aspecto da vida das pessoas que, hoje em dia, tornou-se um de seus elementos mais importantes, penetrando em todos os cantos do cotidiano. Ou seja, se a posse está por todo lado, e os marxistas têm que criticá-la, eles têm que criticar quase tudo na sociedade, e quando essa investigação é feita de forma séria, constitui um objetivo muito nobre.


Porém, para aqueles interessados em alimentar seus egos, para aqueles interessados em girar seus olhos para o chão por gozo e desprezo pelos demais, esse aspecto do marxismo é um sonho de consumo. As vantagens são inúmeras. Por exemplo, ao descobrir uma iniciativa nova para atacar um problema, a reação imediata do marxista chato é fazer alguma crítica, mesmo que ele não tenha parado para refletir sobre a questão, afinal, nada que não seja a completa reestruturação mágica e instantânea da sociedade pode surtir qualquer efeito positivo. Mas criticar  com segurança não é a única vantagem do marxismo pentelho, você também não é obrigado a propor nada de concreto,  felizmente infelizmente a única solução viável é impossível, primeiro porque, naturalmente, mágica não existe e, depois, porque ela é detida pela ignorância do povo. Além disso, todas essas críticas bestas e falta de propostas sempre se escondem atrás das teorias sérias de esquerda, tudo fica justificado pela imagem de crítica progressista genuína, ninguém nunca poderá acusá-lo sem acusar todos os segmentos anti-capitalistas. Assegurando máxima proteção contra investidas como a feita aqui, o marxista chato pode azucrinar à vontade. Ou seja, responsabilidade zero, segurança garantida e vanglória máxima!


No entanto, esse sentimento de superioridade não elimina necessariamente o gosto pelo agrupamento. Na verdade, é muito comum que os dois se combinem, que o chato recorra ao seu elevado grupo para defender-se e encontrar um pouco de camaradagem, já que acabam atraindo a antipatia de todos os outros.


Na faculdade, esse tipo era incomodamente comum e eu tinha a impressão que muita gente escolhia suas linhas teóricas pelos motivos que descrevi acima, ou seja, não as escolhiam pela coerência que elas apresentavam, mas  por vontade de fazer parte de um grupo ou de participar das delícias da segurança da maledicência pseudo-progressista. Imagino quanto das teorias que são favorecidas na Academia, o são não pela sua consistência mas pela capacidade de fazer o intelectual que aderir a suas propostas sentir-se maior que os demais, de fazê-lo sentir-se importante. Se tivéssemos consciência de que esse sentimento nos move e fizéssemos um esforço - mesmo que mínimo - para reduzir sua força em nossas motivações, o próprio marxismo seria o maior beneficiado.

11.2.11

Phantastes



CAPÍTULO XVIII

(...)

Depois de muito tempo, o país de rocha começou a fechar-se ao meu redor, gradativa e vagarosamente estreitando-se, até que me vi caminhando numa galeria de pedra mais uma vez e podia tocar ambos os lados com meus braços estendidos. Ela continuou diminuindo, até que fui forçado a mover-me cautelosamente para evitar bater nos pedaços de rocha que se projetavam. O teto afundava cada vez mais, até que fui compelido, primeiramente a agachar-me e, mais tarde, a arrastar-me sobre as mãos e os joelhos. A situação lembrava-me sonhos horríveis da infância, mas eu não estava com muito medo porque eu tinha certeza de que aquele era o meu caminho e minha única esperança de deixar a Terra das Fadas, com a qual eu já estava quase aborrecido.

Após muito tempo, ao passar por uma curva abrupta pela qual tive que me forçar, eu vi, algumas jardas à frente, a luz do sol, há tempos esquecida, brilhando através de uma pequena abertura para onde o caminho – se “caminho” podia chamar-se a essa altura – conduzia-me. Com grande dificuldade eu atravessei essas últimas jardas e emergi para o dia. Eu estava em uma praia com um mar invernal e com um sol invernal apenas alguns pés acima do horizonte. Era nua, desolada e cinzenta. Centenas de ondas desesperançadas corriam constantemente em direção à areia, caindo exaustas numa praia de grandes pedras soltas, que parecia estender-se por milhas e milhas em ambas as direções. Não havia nada para os olhos além de tons de cinza que se mesclavam; nada para os ouvidos além do tumulto da vinda, o rugido da quebra e o gemido da onda que se retirava. Nenhuma rocha erguia abrigo em meio à desolação; Até mesmo aquela de onde eu emergira levantava-se a menos de meio metro da abertura que eu havia atravessado para alcançar o dia sombrio, ainda mais sombrio que a tumba que eu havia deixado. Um vento frio e funéreo varria a praia, como se viesse de uma boca pálida feita das nuvens do horizonte. Não se via nenhum sinal de vida. Vaguei por entre as pedras, por todos os lados da praia, encarnação humana da natureza ao meu redor. O vento intensificou-se; suas ondas agudas fluíam através da minha alma; a espuma chocava-se impetuosamente contra o alto das pedras; algumas estrelas mortas começavam a brilhar no leste; o som das ondas aumentava e tornou-se ainda mais desesperador. Uma cortina de nuvens negras foi erguida e um buraco azul-pálido brilhava entre os pés dela e o limiar do oceano, de onde soprava uma fria tempestade de ventos gélidos, que rasgava as águas conforme passava e atirava ondas em jorros imensos contra a praia desolada. Eu não podia suportar mais.

Eu não serei torturado até a morte,” gritei; “Eu a encontrarei no meio do caminho. A vida que me resta é ainda suficiente para carregar-me até a face da Morte e, então, morro inconquistado.”

Antes que tudo houvesse ficado tão escuro, eu observara, apesar de não estar particularmente interessado, que em uma parte da praia uma plataforma baixa de rocha parecia estender-se ao longe em meio às ondas que quebravam.

Eu fui em direção a ela, escalando com dificuldade as pedras lisas, às quais algas escassas, quase partículas, agarravam-se; e tendo-a encontrado, subi nela e segui sua direção o melhor que pude, em direção ao caos desmoronadiço. Eu mal podia proteger meus pés do vento e do mar. As ondas arrancavam-me do meu caminho repetidamente; mas eu mantive o passo até chegar ao final do baixo promontório, que na descida das ondas, erguia-se muitos pés acima da superfície e, na ascensão destas, ficava coberto pelas águas. Eu parei por um momento e fitei o abismo abaixo; então mergulhei de cabeça nas ondas crescentes. Uma bênção, como o beijo de uma mãe, pareceu acender minha alma; uma calma, mais profunda que aquela que acompanha uma esperança adiada, banhou meu espírito. Eu afundei completamente e não procurei voltar. Senti-me como se novamente os braços da faia estivessem ao meu redor, acalmando-me dos infortúnios que eu sofrera e dizendo-me, como a uma criancinha doente, que eu estaria melhor pela manhã. As águas levantaram-me, como que com braços amorosos, para a superfície. Eu respirei novamente, mas não abri os olhos. Eu não olhei para o mar de inverno e para o impiedoso céu cinzento. E assim eu boiei, até que algo me tocou gentilmente. Era um pequeno barco, flutuando ao meu lado. Era de cores alegres, coberto como que com escamas brilhantes como aquelas dos peixes, em todas as tonalidades do arco-íris. Eu, cambaleante, subi e deitei-me no fundo, com uma sensação de delicioso descanso.

Então, puxei sobre mim um manto púrpura, rico e pesado; e, ainda deitado, soube pelo som das ondas que minha pequena nau estava avançando rapidamente. Contudo, ao não perceber aquele movimento tempestuoso que eu havia observado da praia, abri meus olhos; e olhando primeiramente para o alto, vi acima de mim o céu profundamente violeta de uma noite quente do sul. A auréola do sol ainda disparava as pontas extremamente difusas de seus raios mais longos acima das ondas do horizonte, sem, porém, apagá-las. Era um crepúsculo perpétuo. As estrelas, grandes e austeras como olhos de crianças, dobravam-se amavelmente na direção das ondas; por sua vez, as estrelas refletidas na água pareciam flutuar para o alto como se desejassem abraçá-las. Mas quando olhei para baixo, vi uma nova maravilha. Pois, vagamente revelado sob as águas, eu flutuava sobre todo o meu Passado. Os campos da minha infância esvoaçavam; os salões dos meus labores juvenis; as ruas das grandes cidades que eu habitara; e as assembleias de homens e mulheres onde eu cansara de procurar descanso. Mas tão indistintas eram as visões, que às vezes eu pensava que estava navegando num mar raso, e que estranhas rochas e florestas de plantas aquáticas atraíam meu olho o suficiente para serem transformadas, pela magia da fantasia, em objetos e regiões conhecidas. Porém, às vezes, uma forma amada parecia deitar-se perto de mim, com sono; e minhas pálpebras tremiam como se fossem abandonar o olho consciente; e os braços eram lançados para o alto, como se em sonhos eles buscassem uma presença de contentamento. Mas esses movimentos deviam vir apenas da ondulação da água entre aquelas formas e eu. Logo caí no sono, subjugado pelo cansaço e pelo prazer. Em sonhos de alegria indizível – de amizades restauradas; de abraços revividos; de amor que dizia que nunca havia morrido; de rostos que desapareceram muito tempo atrás, mas que mesmo assim diziam não conhecer nada do túmulo; de perdões implorados e concedidos com tamanhas torrentes de amor, que eu ficava quase feliz por ter pecado – e assim eu passei por esse incrível pôr-do-sol. Despertei com a sensação de ter sido beijado e amado ao contento do meu coração; e percebi que meu barco estava flutuando, estático, nas bordas relvadas de uma pequena ilha. 

George MacDonald



George MacDonald é um autor que teve enorme influência em muitos dos meus escritores favoritos , como C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien, G. K. Chesterton e W. H. Auden. O original está em domínio público e você tem permissão para ler, copiar e reproduzir esta tradução de acordo com a licença de livre compartilhamento Creative Commons.
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21.11.10

No terminal


Suas frases eram pontuadas com goles de Coca-Cola. Contava seus sucessos do mês nas televendas: já tinha reparado como a Flávia só consegue vender quando está perto da Cris? Bom... um outro mês, ela tinha superado as duas.

Era uma garota branca, de silhueta larga que ria largamente, expandindo para cobrir a timidez. O rapaz delgado sorria pequeno e seguro, o pé esparramado nas havaianas, oscilava ansioso, as pontas dos dedos mais brancas que o dorso.

Ele ouvia satisfeito o não-sei-bem-o-quê que ela dizia, sem desviar o pensamento para si próprio. Ele havia comprado um colar; ela achava que era bonito, sim.

Ele, então, ofereceu o cordão preto a ela. A garota se aproximou com um sorriso corado, envolveu o pescoço curvo dele e atou profundamente um laço, apertou um nó divertido. Nada podia ser somado à sua alegria.

As duas pontas estavam unidas, mas o gozo do momento do nó - que ilude todos a respeito da solução para as dores das almas do mundo - passou. Ficou só a felicidade que tinham soprado nos corpos um do outro.

31.10.10

Tropa de Elite 2


Quando o primeiro Tropa de Elite saiu, ele foi um alívio pelo menos num sentido: ele não era um filme para gringo ver. As favelas, a violência, os traficantes e a polícia não eram problemas apresentados a uma platéia que ignorava essas questões, mas que estava cansada de ter que as olhar na cara todo dia. Na sequência, isso continua e podemos reconhecer brasileiros famosos como o jornal Lance e o apresentador de telejornal sensacionalista.

O fato de ser um filme para brasileiro contribuiu para o sucesso. Mas mais do que só reconhecer a realidade nas telas muita gente aplaudiu as balas do capitão Nascimento, o que era muito estranho para um filme concebido como crítica ao autoritarismo da polícia e não como elogio.

Mas o mais esquisito de tudo isso era mesmo a acusação contra o diretor, José Padilha, de aderir ao ponto de vista do seu protagonista e narrador. Poxa, no país de Machado de Assis, acreditar num narrador como o capitão Nascimento é muita mancada. Acusações parecidas ouviram o diretor de Clube da Luta, também acusado de compactuar com as soluções fáceis e sangrentas de seu personagem principal; agora, por que isso acontece a alguns diretores, mas não a outros, como Coppola e Scorsese, é uma coisa que eu não entendo bem, mas chuto que seja devido às posições dos seus realizadores. Imagino que os últimos estivessem mais bem protegidos atrás de seus nomes famosos.

Bem, a posição de Padilha quanto à violência  estava mais ou menos clara, mas a questão da intersecção das opiniões do diretor e do capitão Nascimento se complicava na crítica ao Foucault. O filme realmente parecia simpatizar com a atitude do protagonista quando ele empurrava a cara do playboy hipócrita na ferida do cadáver do traficante. 

Mas o que os gringos acharam disso? Muitos disseram no Rotten Tomatoes que o que ele propunha era uma polícia fascista como solução para a violência. E o segundo filme veio também para comentar essa repercussão do original. Nessa sequência, o povo aplaude o capitão como aconteceu de fato, mas sua política de guerra contra o tráfico falha terrivelmente e os policiais honestos do batalhão continuam colocando a cabeça dos traficantes no saco, mas, desta vez, as respostas não vêm. A posição do narrador mudou e ele aceitou as complexidades da realidade brasileira, agora não há mais espaço para ambiguidade, pelo menos não na amizade entre o diretor e um narrador super-violento.

Padilha escancara a desaprovação à conduta do protagonista mas parece continuar com a crítica ao Foucault, que agora também tem um representante, o professor universitário Fraga. Por não aderir a nenhuma das posições, o filme foi acusado de niilismo. Ele pode não estar decidido quanto aos seus heróis, mas com certeza está certo quanto ao inimigo e talvez essa seja a melhor conclusão para levar para casa. O filho que tanto Fraga quanto Nascimento estão tentando criar é o mesmo, e se há uma característica comum e importantíssima em ambos - e em como educam seu filho - é a incorruptibilidade. Os dois lados têm diferenças e um está mais certo que o outro, mas acho que se houve algo que foi feito com a franqueza necessária mas sem abrir mão de levantar todas as complexidades - e não acho ingênuo da minha parte - foi a  velhíssima crítica à falta de caráter. Nos covis em que Nascimento e Fraga se metem, não há lugar para meias morais, o inimigo continua sendo o mesmo que sempre foi: os interesses individuais acima de qualquer escrúpulo, e, quanto a isso, o filho de Fraga e Nascimento não tem dúvida de como proceder, e é nele que o filme põe sua magra esperança.

23.9.10

Delectare, docere et movere


A coordenadora pedagógica da minha escola, uma magrinha simpática que sempre me parece sincera, nos disse que haviam sido abertas vagas para visitação monitorada de professores a um importante evento artístico da cidade. Eu, tentado pela oportunidade de passear ao invés de dar aula, me inscrevi e fui sorteado.

Hoje fui à Bienal de Arte Moderna e me lembrei de um crítico do começo do século passado que dizia que o Modernismo irritava as pessoas porque elas não tinham capacidade de entender a arte. Naquela época eu me irritava, mas não exatamente por não entender a arte moderna mas por não conseguir apreciá-la. Achava tudo uma chatice e me sentia inferior.

Qual não foi minha surpresa hoje quando, mais maduro, percebi que eu não ia tão mal assim. Os monitores, cuja profissão era entender as obras, se davam tão bem quanto eu. E apesar de tudo isso, continuava irritado; continuava com aquela mesma sensação que tinha no colegial de que alguém estava me pregando uma peça. Como se um colega fosse sair de detrás do emaranhado de arame, sem poder mais conter as gargalhadas ao ouvir nossa interpretação a respeito do teco que faltava na bandeira pendurada ao teto do prédio.

Um dos problemas com esse gênero de arte plástica - se é que essa é a classificação correta - é que quase todas podiam ser superadas totalmente por algum outro tipo de expressão. A pintura, a fotografia, a arquitetura e a poesia podiam derrotar quase todas as obras tanto no delectare, quanto no docere e no movere latinos.

Outro problema é a indispensabilidade de contexto, parece que o que faz essa arte ser arte é o pedestal. Um quadro é quadro porque é quadro, o mesmo vale para uma música, um prédio, um filme, um livro, uma fotografia, uma coreografia ou uma história em quadrinhos... Mas o que faz as cadeiras com pernas pela metade serem arte é o degrau que separa elas do chão. 

Talvez meu comportamento conservador merecesse uma análise psicanalítica. Mas, ué, talvez os entusiastas é que precisassem.

Mas, para tentar me defender uma última vez, tenho algumas ocorrências divertidas. Quando no árido de jornais colados e urubus enjaulados, um grupo de músicos saiu marchando de dentro de uma estrutura, tocando o belo e velho bolero de Ravel, todos pararam para voltar sua atenção; causo 2: a obra que mais interessou a todos era uma série de desenhos de Gil Vicente, em que o artista aparecia apontando pistolas e outras armas contra conhecidas figuras públicas. Mas a ocorrência mais emblemática foi mesmo a última. Ao descer as rampas para deixar o prédio da bienal, o monitor conversava com um dos professores do nosso grupo sobre uma escavação que estava sendo feita bem na frente do edifício: "Todo mundo achou que era uma peça de arte, eu achei que o artista estava procurando ouro no subsolo, mas na verdade, foi uma obra que os bombeiros pediram."

6.8.10

Fábula de Formigas


Olhei uma carreira de formigas andando no rejunte do piso e imaginei que elas tivessem pequenas almas.

As formigas não podem enxergar e por isso vão andando na linha o melhor que podem, tentando seguir o cheiro uma das outras. Elas estavam totalmente alheias a mim e à minha observação, que lhes examinava como elas mesmas nunca poderiam fazer. Via que, às vezes, muitas carregavam juntas uma carga leve, uma migalha de pão ou um confeito velho, enquanto outras carregavam sozinhas grandes nacos de folhas. Em seu caminho, trombavam umas com as outras, atropelavam-se e quando uma, sem migalha nem folha, deixava a trilha, desesperava-se, correndo cega pelo piso. Vi que o caminho que elas faziam era quase sempre o pior, podiam trabalhar menos caso escolhessem outra rota, mas não havia como perceberem, apenas farejando seus objetivos. Iam, dessa forma, todas em fila todo o dia marchando para o formigueiro, onde alimentavam as larvas e a rainha. E viviam para isso, para que ela pudesse sentar e ser preguiçosamente fecundada a vida inteira.

As nuvens estavam densas e ruidosas no céu, prontas para destruir as formigas, as larvas e a rainha, mas elas também estavam alheias a essa certeza e talvez tivessem esperança que o vento levasse a chuva. Pareciam-me bem intencionadas e fiquei com pena delas.

Quando os primeiros pingos liquidaram as primeiras operárias, vi uma delas parada no topo do formigueiro e era como se esta pudesse ver suas irmãs e adivinhar o Céu cinzento, no entanto ficava parada observando a catástrofe, sentindo-se superior, especial e impotente.

17.4.10

começando

Quero usar o espaço para divagar sobre coisas que me inquietam, talvez mostrar alguns desenhos e, quem sabe, num futuro que eu espero que esteja próximo, postar minhas ficções.

Vamos ver no que dá!