6.8.10

Fábula de Formigas


Olhei uma carreira de formigas andando no rejunte do piso e imaginei que elas tivessem pequenas almas.

As formigas não podem enxergar e por isso vão andando na linha o melhor que podem, tentando seguir o cheiro uma das outras. Elas estavam totalmente alheias a mim e à minha observação, que lhes examinava como elas mesmas nunca poderiam fazer. Via que, às vezes, muitas carregavam juntas uma carga leve, uma migalha de pão ou um confeito velho, enquanto outras carregavam sozinhas grandes nacos de folhas. Em seu caminho, trombavam umas com as outras, atropelavam-se e quando uma, sem migalha nem folha, deixava a trilha, desesperava-se, correndo cega pelo piso. Vi que o caminho que elas faziam era quase sempre o pior, podiam trabalhar menos caso escolhessem outra rota, mas não havia como perceberem, apenas farejando seus objetivos. Iam, dessa forma, todas em fila todo o dia marchando para o formigueiro, onde alimentavam as larvas e a rainha. E viviam para isso, para que ela pudesse sentar e ser preguiçosamente fecundada a vida inteira.

As nuvens estavam densas e ruidosas no céu, prontas para destruir as formigas, as larvas e a rainha, mas elas também estavam alheias a essa certeza e talvez tivessem esperança que o vento levasse a chuva. Pareciam-me bem intencionadas e fiquei com pena delas.

Quando os primeiros pingos liquidaram as primeiras operárias, vi uma delas parada no topo do formigueiro e era como se esta pudesse ver suas irmãs e adivinhar o Céu cinzento, no entanto ficava parada observando a catástrofe, sentindo-se superior, especial e impotente.

4 comentários:

  1. uma formiga que se destaca entre tantas outras... muito bom seu texto, me fez pensar...

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  2. Nossa, Le, muito bom!

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  3. "À sua volta as pessoas caminhavam como formigas que se ignoram, que ignoram, enfim, a sua qualidade de formigas. Que estranhas deviam ser, vistas do alto, todas iguais, sem idade nem sexo nem cor. Formigas que o divino pé, caminhando incessantemente pelo mundo, ia poupando, ia esmagando ao acaso." Maria Judite de Carvalho

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