11.2.11

Phantastes



CAPÍTULO XVIII

(...)

Depois de muito tempo, o país de rocha começou a fechar-se ao meu redor, gradativa e vagarosamente estreitando-se, até que me vi caminhando numa galeria de pedra mais uma vez e podia tocar ambos os lados com meus braços estendidos. Ela continuou diminuindo, até que fui forçado a mover-me cautelosamente para evitar bater nos pedaços de rocha que se projetavam. O teto afundava cada vez mais, até que fui compelido, primeiramente a agachar-me e, mais tarde, a arrastar-me sobre as mãos e os joelhos. A situação lembrava-me sonhos horríveis da infância, mas eu não estava com muito medo porque eu tinha certeza de que aquele era o meu caminho e minha única esperança de deixar a Terra das Fadas, com a qual eu já estava quase aborrecido.

Após muito tempo, ao passar por uma curva abrupta pela qual tive que me forçar, eu vi, algumas jardas à frente, a luz do sol, há tempos esquecida, brilhando através de uma pequena abertura para onde o caminho – se “caminho” podia chamar-se a essa altura – conduzia-me. Com grande dificuldade eu atravessei essas últimas jardas e emergi para o dia. Eu estava em uma praia com um mar invernal e com um sol invernal apenas alguns pés acima do horizonte. Era nua, desolada e cinzenta. Centenas de ondas desesperançadas corriam constantemente em direção à areia, caindo exaustas numa praia de grandes pedras soltas, que parecia estender-se por milhas e milhas em ambas as direções. Não havia nada para os olhos além de tons de cinza que se mesclavam; nada para os ouvidos além do tumulto da vinda, o rugido da quebra e o gemido da onda que se retirava. Nenhuma rocha erguia abrigo em meio à desolação; Até mesmo aquela de onde eu emergira levantava-se a menos de meio metro da abertura que eu havia atravessado para alcançar o dia sombrio, ainda mais sombrio que a tumba que eu havia deixado. Um vento frio e funéreo varria a praia, como se viesse de uma boca pálida feita das nuvens do horizonte. Não se via nenhum sinal de vida. Vaguei por entre as pedras, por todos os lados da praia, encarnação humana da natureza ao meu redor. O vento intensificou-se; suas ondas agudas fluíam através da minha alma; a espuma chocava-se impetuosamente contra o alto das pedras; algumas estrelas mortas começavam a brilhar no leste; o som das ondas aumentava e tornou-se ainda mais desesperador. Uma cortina de nuvens negras foi erguida e um buraco azul-pálido brilhava entre os pés dela e o limiar do oceano, de onde soprava uma fria tempestade de ventos gélidos, que rasgava as águas conforme passava e atirava ondas em jorros imensos contra a praia desolada. Eu não podia suportar mais.

Eu não serei torturado até a morte,” gritei; “Eu a encontrarei no meio do caminho. A vida que me resta é ainda suficiente para carregar-me até a face da Morte e, então, morro inconquistado.”

Antes que tudo houvesse ficado tão escuro, eu observara, apesar de não estar particularmente interessado, que em uma parte da praia uma plataforma baixa de rocha parecia estender-se ao longe em meio às ondas que quebravam.

Eu fui em direção a ela, escalando com dificuldade as pedras lisas, às quais algas escassas, quase partículas, agarravam-se; e tendo-a encontrado, subi nela e segui sua direção o melhor que pude, em direção ao caos desmoronadiço. Eu mal podia proteger meus pés do vento e do mar. As ondas arrancavam-me do meu caminho repetidamente; mas eu mantive o passo até chegar ao final do baixo promontório, que na descida das ondas, erguia-se muitos pés acima da superfície e, na ascensão destas, ficava coberto pelas águas. Eu parei por um momento e fitei o abismo abaixo; então mergulhei de cabeça nas ondas crescentes. Uma bênção, como o beijo de uma mãe, pareceu acender minha alma; uma calma, mais profunda que aquela que acompanha uma esperança adiada, banhou meu espírito. Eu afundei completamente e não procurei voltar. Senti-me como se novamente os braços da faia estivessem ao meu redor, acalmando-me dos infortúnios que eu sofrera e dizendo-me, como a uma criancinha doente, que eu estaria melhor pela manhã. As águas levantaram-me, como que com braços amorosos, para a superfície. Eu respirei novamente, mas não abri os olhos. Eu não olhei para o mar de inverno e para o impiedoso céu cinzento. E assim eu boiei, até que algo me tocou gentilmente. Era um pequeno barco, flutuando ao meu lado. Era de cores alegres, coberto como que com escamas brilhantes como aquelas dos peixes, em todas as tonalidades do arco-íris. Eu, cambaleante, subi e deitei-me no fundo, com uma sensação de delicioso descanso.

Então, puxei sobre mim um manto púrpura, rico e pesado; e, ainda deitado, soube pelo som das ondas que minha pequena nau estava avançando rapidamente. Contudo, ao não perceber aquele movimento tempestuoso que eu havia observado da praia, abri meus olhos; e olhando primeiramente para o alto, vi acima de mim o céu profundamente violeta de uma noite quente do sul. A auréola do sol ainda disparava as pontas extremamente difusas de seus raios mais longos acima das ondas do horizonte, sem, porém, apagá-las. Era um crepúsculo perpétuo. As estrelas, grandes e austeras como olhos de crianças, dobravam-se amavelmente na direção das ondas; por sua vez, as estrelas refletidas na água pareciam flutuar para o alto como se desejassem abraçá-las. Mas quando olhei para baixo, vi uma nova maravilha. Pois, vagamente revelado sob as águas, eu flutuava sobre todo o meu Passado. Os campos da minha infância esvoaçavam; os salões dos meus labores juvenis; as ruas das grandes cidades que eu habitara; e as assembleias de homens e mulheres onde eu cansara de procurar descanso. Mas tão indistintas eram as visões, que às vezes eu pensava que estava navegando num mar raso, e que estranhas rochas e florestas de plantas aquáticas atraíam meu olho o suficiente para serem transformadas, pela magia da fantasia, em objetos e regiões conhecidas. Porém, às vezes, uma forma amada parecia deitar-se perto de mim, com sono; e minhas pálpebras tremiam como se fossem abandonar o olho consciente; e os braços eram lançados para o alto, como se em sonhos eles buscassem uma presença de contentamento. Mas esses movimentos deviam vir apenas da ondulação da água entre aquelas formas e eu. Logo caí no sono, subjugado pelo cansaço e pelo prazer. Em sonhos de alegria indizível – de amizades restauradas; de abraços revividos; de amor que dizia que nunca havia morrido; de rostos que desapareceram muito tempo atrás, mas que mesmo assim diziam não conhecer nada do túmulo; de perdões implorados e concedidos com tamanhas torrentes de amor, que eu ficava quase feliz por ter pecado – e assim eu passei por esse incrível pôr-do-sol. Despertei com a sensação de ter sido beijado e amado ao contento do meu coração; e percebi que meu barco estava flutuando, estático, nas bordas relvadas de uma pequena ilha. 

George MacDonald



George MacDonald é um autor que teve enorme influência em muitos dos meus escritores favoritos , como C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien, G. K. Chesterton e W. H. Auden. O original está em domínio público e você tem permissão para ler, copiar e reproduzir esta tradução de acordo com a licença de livre compartilhamento Creative Commons.
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2 comentários:

  1. Muito bom o texto e muito boa a tradução, Le! Espero em breve poder fazer o mesmo! ;)

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